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Canario na mina de carvão?

“O canário ainda está vivo, não existe necessidade de entrar em pânico; pelo menos até o momento”.

Péssima gestão de risco implica risco peculiar

Os problemas do Silicon Valley Bank (SIVB) parece muito mais relacionado a péssima gestão de risco dos responsáveis pela instituição (assim um risco idiossincrático ou peculiar) do que um risco sistêmico.


Não existe dúvidas sobre o problema da conhecida “corrida ao banco”, porém muita coisa indica que o SIVB era um caso muito fora da curva e extremamente vulnerável as mudanças macro que estavam por acontecer após os excessos da pandemia começassem a ser resolvidos. Esse momento se iniciou em janeiro 2022 quando o Fed anunciou o início do “aperto quantitativo”; na linguagem popular, “pisar no freio”.


A indigestão pode persistir e alguns outros bancos menores podem sofrer. No entanto, é razoável – e até prudente – concluir que o SIVB é um caso relativamente único de péssima gestão de risco; ou seja, excepcionalmente exposto, tanto do lado do passivo quanto do ativo, ao aumento das taxas de juros e a consequências da euforia nos mercados financeiros. O SIVB não é o canário da mina de carvão.


Vamos analisar...

O aumento das taxas de juros pelo Fed desde março 2022 criou prejuízos não realizados no portfólio de títulos de Tesouro Americano e Mortgage Back Securities (instrumentos “colaterizados” por hipotecas), que a partir de agora vai passar a ser alvo de exames minuciosos dos analistas que deixaram a peteca cair e tópico du jour dos “influencers” (ou melhor, #PredadorFinanceiro) na mídia social.


Na medida em que o Fed passou a aumentar juros durante o ano de 2022, clientes do SIVB passaram a sacar depósitos e nos últimos meses os saques aceleraram muito mais do que esperado, o que levou o banco a vender ativos para honrar os saques.


Os bancos podem ter vários tipos de ativos em seu portfólio; no entanto, aqui nos EUA os principais ativos no portfólio de bancos são os instrumentos de renda fixa classificados como “held to maturity” (destinados a permanecer no portfólio até o vencimento) e “available for sale” (disponíveis para a venda). [1]


Com o aumento nas taxas de juros, o mecanismo de marcação a mercado (tópico extremamente atual no Brasil) faz com que os instrumentos de renda fixa demonstrem prejuízos não realizados; que, normalmente não são um problema até que um banco precise vender títulos para atender às necessidades de liquidez.


No caso do SIVB, na medida em que os saques foram aumentando o banco teve que passar a realizar esses prejuízos antes não realizados. Isso se tornou uma bola de neve que passou a exercer um “feedback loop” de prejuízos realizados no portfólio do banco.


De acordo com o FDIC, ao fim de 2022 os bancos estavam sentados em US $ 620,4 bilhões em prejuízos não realizados, dos quais US $ 340,9 estavam em “held to maturity” e US $ 279,5 bilhões estavam “available for sale”.


No caso do SIVB, o portfólio de “held to maturity” inchou de $16.6 bilhões para uma máxima de ~$99.0 bilhões em 2021 e caiu para ~$91.0 bilhões em 2022, com um prejuízo não realizado médio de ~$17.0 bilhões ou 17% do portfólio.


Desde então, a média da taxa de juros do Tesouro Americano subiu mais 0.35% até a última quarta-feira, criando mais prejuízos. Curiosamente todo esse aumento de 2023 foi eliminado rapidamente entre os pregoes da quinta e sexta-feira passada. Dessa forma, o problema do SIVB está resolvendo o problema do portfólio de outros bancos!!!


Portanto, erros básicos de concentração e gestão de risco no portfólio de ativos do banco foram cometidos. Isso não significa que outros bancos não tenham cometido os mesmos erros, porém também não existe motivo para ter absoluta certeza de que todos eles cometeram os mesmos erros.

[1] A diferença de classificação está na consequência contábil, tributária e na divulgação de relatórios periódicos, que vai além do objetivo desse artigo.



 

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